Por Ascom/Unimontes
A Universidade Estadual de Montes Claros (Unimontes) realizou, nesta quinta-feira (26/03), a palestra “Os desafios do SUS na atualidade”, reunindo acadêmicos, pesquisadores e profissionais da saúde no auditório do Centro de Ciências Biológicas e da Saúde (CCBS), no campus sede.
O encontro integrou as atividades do grupo de pesquisa “Projeto Montes Claros e as contribuições para a construção do Sistema Único de Saúde no Brasil”, coordenado pela professora Leni Maria Pereira Silva e pela subcoordenadora Filomena Luciene Cordeiro, diretora da Diretoria de Documentação e Informações (DDI). A iniciativa é responsável pelo levantamento e pela sistematização de dados que irão subsidiar a produção de um livro sobre a história do Sistema Único de Saúde (SUS), com ênfase em sua construção em Montes Claros e na Unimontes.
A pesquisa adota como metodologia a análise documental e a história oral, com a escuta de profissionais e personagens que participaram diretamente das experiências pioneiras de atenção primária à saúde na região, incluindo médicos da antiga Fundação Norte Mineira de Ensino Superior (FUNM), hoje Unimontes.
Compuseram o dispositivo de honra a diretora do CCBS, Cássia Pérola dos Anjos Braga Pires; a coordenadora do projeto, Leni Maria Pereira Silva; e o professor aposentado João Batista Silvério.
O tema foi conduzido pelo consultor em saúde pública e sanitarista Eugênio Vilaça, referência nacional na formulação das Redes de Atenção à Saúde (RAS), modelo que orienta a organização do Sistema Único de Saúde (SUS). Durante a palestra, ele destacou a relação histórica entre o Norte de Minas e a construção de políticas públicas de saúde no país.

Foto: Neto Macedo Ascom Unimontes | consultor em saúde pública e sanitarista Eugênio Vilaça.
“Hoje eu estou aqui na Unimontes, onde trabalhei na origem de um projeto muito inovador, em um contexto de recursos escassos e de uma população rural ampla e desassistida. A proposta buscava ampliar a cobertura de saúde e acabou gerando um modelo de atenção que influenciou diretamente o desenvolvimento do SUS no Brasil”, afirmou.
Ao retornar à instituição após cinco décadas, o especialista enfatizou as mudanças no perfil demográfico e epidemiológico da população brasileira, apontando novos desafios para o sistema de saúde.
“O diferente agora é que temos uma população que envelhece e uma predominância das doenças crônicas. Hoje, cerca de 80% da carga de doenças está relacionada a essas condições. Isso exige uma transformação profunda no modelo de atenção à saúde”, explicou.
Segundo Vilaça, o enfrentamento desse cenário passa pela reestruturação da forma como o SUS organiza seus serviços, com foco na gestão da saúde da população, e não apenas na oferta de procedimentos.
“O grande desafio é montarmos um novo modelo de atenção às condições crônicas, com mudanças na gestão e também no financiamento. Não se trata mais de pagar por procedimentos, mas de adotar mecanismos que gerem valor para a saúde das pessoas”, destacou.
O palestrante também apresentou experiências recentes desenvolvidas no país, como a planificação da atenção à saúde, iniciativa que vem sendo aplicada em diversos estados brasileiros.
“Hoje já temos resultados muito favoráveis, com atuação em 20 estados, alcançando mais de 1.700 municípios e cerca de 30 milhões de pessoas. Esse é um modelo que pode contribuir significativamente para o enfrentamento dos desafios atuais do SUS”, concluiu.
A iniciativa contou com a participação de docentes de diferentes áreas, como Serviço Social, História, Medicina, Direito e Psicologia, além do apoio de instituições como a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais (Fapemig) e o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).
SUS e a Unimontes
Montes Claros e a Universidade Estadual de Montes Claros (Unimontes) tiveram papel central na criação do Sistema Único de Saúde (SUS).
O marco dessa história teve início com o missionário e enfermeiro Leslie Charles Scofield, que chegou ao Brasil em 1956 para atuar junto às populações ribeirinhas do Rio São Francisco, combinando evangelismo e assistência social. Após retornar aos Estados Unidos e concluir o doutorado em Saúde Pública em 1970, Scofield voltou ao Brasil e, em 1971, fundou o Instituto de Preparo e Pesquisa para o Desenvolvimento da Assistência Sanitária Rural (IPPEDASAR).
O instituto estabeleceu convênios com a antiga Fundação Norte Mineira de Ensino Superior (FUNM), atual Unimontes, a Secretaria de Estado da Saúde de Minas Gerais e instituições internacionais, dando origem ao Projeto Montes Claros. Esse projeto regional de saúde, que contemplava unidades básicas, policlínicas, hospitais locais e referências regionais, serviu como modelo teórico para o que viria a se tornar o Sistema Único de Saúde (SUS).
Graças à mobilização de Leslie Scofield, a Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (USAID) aprovou um financiamento de US$ 4 milhões para que o Governo de Minas implantasse a rede de unidades de saúde na região. O projeto consolidou princípios que se tornaram estruturantes do SUS, como regionalização, descentralização, atenção primária, participação popular e integração com a universidade, beneficiando mais de 40 municípios do Norte de Minas.
